Estudo com mais de 22 mil pessoas revela quais memórias estão ligadas a uma vida adulta mais saudável e a menos sintomas de depressão na velhice

Não é nenhum segredo que as vivências da infância influenciam diretamente a vida adulta. Mas um estudo publicado na revista científica Health Psychology descobriu que as memórias podem afetar a saúde física e mental. Os pesquisadores revelaram que, inclusive, adultos mais felizes costumam compartilhar duas memórias em comum de quando eram crianças.
A pesquisa, liderada por William J. Chopik e Robin S. Edelstein, da Michigan State University e da University of Michigan, dos Estados Unidos, analisou dados de mais de 22 mil participantes, que traziam levantamentos sobre desenvolvimento, saúde e aposentadoria no país. Eles buscaram entender de que forma as lembranças da relação com os pais na infância estão associadas à saúde física e mental ao longo do tempo.
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A análise revelou que participantes que recordavam ter uma infância mais afetuosa apresentavam menos sintomas depressivos e menos doenças crônicas ao longo da vida. Além disso, dentre as diferentes lembranças analisadas pelos pesquisadores, duas apresentaram uma associação especialmente forte com melhores indicadores de saúde mental e bem-estar na terceira idade.
Quais são as lembranças da infância associadas a uma vida mais feliz?
Segundo o estudo de Chopik e Edelstein, existem duas lembranças que adultos mais felizes costumam compartilhar. Saiba quais são:
1. Ter recebido carinho e afeto dos pais
Os resultados mostraram que adultos que se lembravam de ter recebido mais carinho, afeto e cuidado dos pais — especialmente da mãe — durante a infância apresentavam, anos mais tarde, menos sintomas de depressão e uma menor incidência de doenças crônicas.
Essa relação permaneceu mesmo após os pesquisadores levarem em conta fatores como idade e condição socioeconômica. Independentemente dessas variáveis, quem recordava uma infância mais afetuosa tendia a apresentar melhores indicadores de saúde, sobretudo de saúde mental.
2. Ter sido acolhido pelos pais em momentos difíceis
Outra lembrança associada a melhores indicadores de saúde foi a de pais que ofereciam acolhimento nos momentos difíceis da infância. Adultos que se recordavam de receber conforto, carinho e compreensão quando enfrentavam problemas apresentavam melhores níveis de saúde física e mental décadas depois.
Embora o estudo tenha analisado apenas a associação entre essas memórias e os indicadores de saúde, os pesquisadores sugerem que crescer em um ambiente marcado pelo cuidado e pelo apoio pode influenciar a forma como as pessoas lidam com desafios ao longo da vida.
‘Não são apenas os grandes acontecimentos que ficam na memória’
Para a psicóloga Sarah Karounis, a pesquisa traz considerações interessantes. “O fato de adultos que se lembram de ter recebido carinho, cuidado e acolhimento dos pais apresentarem menos sintomas depressivos e menos doenças crônicas reforça a importância dos vínculos familiares e das experiências afetivas durante o desenvolvimento”, afirma.
“Acredito que o estudo também nos faz refletir que não são apenas os grandes acontecimentos que ficam na memória de uma criança, mas, principalmente, a forma como ela se sentia dentro de casa”, acrescenta. Segundo ela, a convivência no dia a dia é o que realmente faz a diferença.
“Ter alguém que ofereça segurança, escute, acolha e esteja presente nos momentos difíceis pode contribuir para que a criança desenvolva uma maior sensação de segurança e consiga lidar melhor com os desafios ao longo da vida”, destaca.
“É importante, porém, lembrar que o estudo aponta uma associação entre essas lembranças e melhores indicadores de saúde, e não que uma infância afetuosa seja, sozinha, garantia de uma vida adulta saudável”, ressalta.
‘Estar presente não significa apenas estar no mesmo ambiente’
Sarah Karounis reforça a importância da presença dos pais para o desenvolvimento emocional dos filhos. “Estar presente não significa apenas estar fisicamente no mesmo ambiente, mas realmente participar da vida da criança, conversar, ouvir, brincar, demonstrar carinho e oferecer apoio quando ela estiver passando por alguma dificuldade”, afirma.
Na atualidade, isso se torna ainda mais importante. “Celulares, televisão, jogos e outras tecnologias podem ocupar grande parte do tempo da família e diminuir os momentos de interação entre pais e filhos”, diz.
Para ela, o mais importante é buscar um equilíbrio. “A tecnologia faz parte da realidade das crianças e não precisa ser vista apenas como algo negativo, mas não deve substituir o contato humano e a convivência familiar. Pequenos momentos do dia, como fazer uma refeição juntos, conversar sobre como foi o dia, brincar ou simplesmente estar disponível para ouvir a criança, podem se transformar em lembranças importantes no futuro”, destaca.
“Mais do que oferecer presentes ou recursos materiais, estar emocionalmente disponível pode ajudar a criança a se sentir amada, segura e acolhida”, finaliza.





