
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elevou neste domingo (23) o tom contra o Canadá após o fracasso das negociações comerciais entre os dois países.
No sábado, os EUA anunciaram tarifas de 50% sobre produtos importados do Canadá, já que não foi possível finalizar um acordo que, na avaliação americana, teria reduzido substancialmente as tarifas e oferecido condições mais favoráveis de acesso ao mercado dos EUA.
Em resposta, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, anunciou tarifas de retaliação sobre produtos americanos a partir de 8 de setembro.
“O Canadá quer os benefícios de ser um Estado, sem ser um!!! Eles também cobraram dos nossos grandes agricultores, durante muitos anos, enormes quantias em tarifas. Chega!!!”, escreveu Trump.
O cabo de guerra dos norte-americanos
A nova escalada ocorre apenas alguns dias depois de os dois países indicarem que estavam próximos de um acordo.
Na terça-feira (18), Trump havia suspendido por três dias a aplicação das tarifas de 50%, alegando que EUA e Canadá tinham chegado a um entendimento preliminar. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, confirmou que havia “progressos substanciais” nas conversas.
As negociações, porém, fracassaram na noite de sexta-feira (21). As tarifas americanas entraram em vigor à 0h01 de sábado (22), no horário de Washington, sobre cerca de US$ 20 bilhões (R$ 102 bilhões) em produtos canadenses.
Em resposta, Carney anunciou que o Canadá aplicará tarifas “dólar por dólar” a produtos americanos. “Nos próximos dias, divulgaremos detalhes dessas novas medidas tarifárias, que entrarão em vigor na terça-feira seguinte ao Dia do Trabalho”, afirmou o premiê em coletiva de imprensa.
Casa Branca chama Carney de ‘insensato’Neste domingo, o secretário dos Transportes dos Estados Unidos, Sean Duffy, declarou que “pensar que eles [canadenses] vão entrar em guerra com Donald Trump e realmente vencer a guerra contra os Estados Unidos, acho que é insensato da parte deles”, ao programa “Fox News Sunday”.
Carney, por outro lado, adotou um tom desafiador ao anunciar a retaliação canadense.
“Você está em guerra quando é atacado. Nós fomos atacados”, afirmou no sábado (22), depois de rejeitar o que classificou como um “mau acordo” oferecido por Washington.
Por que o Canadá não firmou o acordo?
Segundo Carney, os avanços obtidos nas negociações não foram suficientes para atender aos objetivos do Canadá. O premiê também afirmou que os Estados Unidos tentaram incluir no acordo cláusulas que limitariam a capacidade canadense de firmar futuros acordos comerciais com outros parceiros.
As negociações também envolveram uma série de outros pontos de atrito, incluindo tarifas sobre automóveis, aço e alumínio, acesso ao mercado canadense de leite, aves e ovos, compras governamentais, bebidas alcoólicas, serviços digitais, propriedade intelectual, agricultura, trabalho forçado, energia e preços de medicamentos.
De acordo com o governo Trump, um dos principais pontos de divergência envolvia as tarifas previstas na chamada Seção 232 da legislação comercial americana, que permite a aplicação de tarifas por motivos de segurança nacional.
“Washington estava exigindo demais e oferecendo muito pouco”, declarou Carney.
O primeiro-ministro também afirmou que algumas exigências americanas representariam uma ameaça à língua francesa e à cultura de Quebec. Entre os temas discutidos estavam subsídios à produção cultural francófona, a presença de meios de comunicação em francês nas plataformas digitais e a obrigatoriedade de rotulagem bilíngue de produtos vendidos no Canadá.
“Quando somos atacados, estamos em guerra. Nós fomos atacados”, disse Carney em Ottawa.
A disputa marca uma nova deterioração na relação entre os dois países e coloca em risco o futuro do acordo comercial entre Estados Unidos, Canadá e México. O Canadá é particularmente vulnerável à escalada porque cerca de 70% de suas exportações têm como destino o mercado americano.
De acordo com o governo Trump, um dos principais pontos de divergência envolvia as tarifas previstas na chamada Seção 232 da legislação comercial americana, que permite a aplicação de tarifas por motivos de segurança nacional.
Os principais pontos de atrito
O fracasso das negociações ocorreu em meio a uma série de disputas comerciais acumuladas entre os dois países. Em seu relatório de 2026 sobre o Canadá, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) destacou diferentes áreas de conflito.
- Leite, aves e ovos: os Estados Unidos criticam o sistema canadense que controla a produção desses produtos, com limites de produção e cotas de importação;
- Preferência para empresas canadenses: Washington contesta a iniciativa Buy Canadian (“Compre Canadense”), que dá prioridade a empresas do país e ao uso de aço, alumínio e madeira produzidos no Canadá em grandes contratos públicos;
- Vinho, cerveja e destilados: os EUA afirmam que o controle da distribuição de bebidas alcoólicas por órgãos públicos provinciais cria barreiras relacionadas a produtos, preços e regras de distribuição;
- Impostos sobre serviços digitais e plataformas: Washington acompanha o imposto canadense sobre serviços digitais cobrado de grandes empresas de tecnologia;
- Serviços de streaming: os Estados Unidos também contestam regras que exigem contribuições financeiras de determinadas plataformas para o sistema de radiodifusão canadense;
- Agricultura e sementes: os Estados Unidos afirmam que o sistema canadense de registro de sementes é lento e burocrático e dificulta a entrada de sementes e grãos americanos;
- Propriedade intelectual: o Canadá continua na lista de observação dos Estados Unidos sobre proteção à propriedade intelectual;
- Trabalho forçado: os Estados Unidos consideram insuficiente a fiscalização canadense para impedir a entrada de produtos fabricados com trabalho forçado;
- Mercado de energia em Alberta: Washington afirma que o mercado de eletricidade da província prejudica produtores americanos;
- Preços de medicamentos: os EUA criticam o órgão canadense responsável por revisar os preços de medicamentos patenteados.





