Centrão encurrala Bolsonaro e tenta forçá-lo a escolher entre prisão e fim do bolsonarismo

Crédito: Gustavo Moreno/STF

Encurralado pelo centrão, Jair Bolsonaro tem uma decisão difícil para tomar nos próximos meses: viver fora da prisão ou se manter como a principal força política da direita no país. É esse o pedágio que se cobra do ex-presidente na concertação orquestrada pelo grupo que controla o Congresso, ao atrelar sua anistia a uma declaração inequívoca de apoio à candidatura de Tarcísio de Freitas (Republicanos) à Presidência da República em 2026.

Em entrevista à Folha na semana passada, o senador e presidente do PP, Ciro Nogueira (PI), deixou claro o que já se falava nos bastidores. A “anistia ampla, geral e irrestrita” que se costura no parlamento não inclui a inelegibilidade do ex-presidente, declarada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2023. Ou seja, está fora de cogitação até de seu ex-ministro da Casa Civil libertar Bolsonaro para uma revanche contra Lula. O que se deseja é tê-lo no palanque para apoiar o candidato do establishment político do Congresso, da Faria Lima e, possivelmente, de boa parte da mídia.

O problema é que esse gesto acarreta um custo elevado para Bolsonaro. Ele estará, em tese, elegível em 2030. Porém, caso Tarcísio seja alçado ao Planalto, seu projeto presidencial é de oito anos. Nesse período, caberá ao PT o papel de principal antagonista, restando pouco espaço para Bolsonaro fazer política.

2026 traz repetição com 2018

A situação do ex-presidente é semelhante à de Lula em 2018, ano em que o petista foi preso no âmbito da Lava Jato e declarado inelegível pelo TSE. Se o objetivo fosse impedir Bolsonaro de chegar ao poder, o mais lógico seria declarar apoio a Ciro Gomes (PDT), que teria muito mais chances de vencer um eventual segundo turno. Caso seguisse esse caminho, Lula talvez até conseguisse um indulto, mas teria entregado de bandeja todo seu capital político a um aliado histórico, porém independente e com ambições políticas próprias. Um governo Ciro Gomes representaria o fim do predomínio petista no campo da esquerda.

Não por acaso, Lula decidiu levar sua pré-candidatura até os 48 do segundo tempo, mesmo encarcerado em Curitiba. Foi só em 1º de agosto daquele ano, quando o TSE indeferiu sua candidatura, que ele ungiu Fernando Haddad como candidato, enquanto o antipetismo atingia seu ápice no país. O atual ministro da Fazenda perdeu a eleição, mas a hegemonia na esquerda continuou nas mãos do PT. Quatro anos depois, quando a maré virou, Lula retornou ao poder, impondo derrota inédita a um presidente incumbente desde a redemocratização.

Esse é exatamente o dilema de Bolsonaro, prestes a ser condenado no STF. A família é “o PT de Bolsonaro”. Mas apostar na candidatura de um filho, como Flávio ou Eduardo, ou da esposa, Michelle, aumenta consideravelmente as chances de vitória de Lula. A transferência de sua altíssima rejeição, bem maior do que a de Lula, será praticamente automática. Por outro lado, declarar apoio a Tarcísio é entregar para o “aliado não sanguíneo” todo o seu capital político.

Diferentemente de Dilma Rousseff, que governou sob a sombra de Lula e com a marca do petismo, Tarcísio não tem uma ligação umbilical com o bolsonarismo. O governador apenas precisa dos votos do ex-presidente para se viabilizar em 2026. Uma vez com a máquina federal na mão, tende a alçar voo solo, tornando-se a principal figura da direita e da centro-direita no país. Assim, Tarcísio eleito é praticamente um “game over” para o bolsonarismo.

Em um país fortemente polarizado, a disputa eleitoral começa pela conquista de um dos extremos. Foi esse o movimento que Tarcísio tentou fazer na manifestação na avenida Paulista no domingo do 7 de setembro. Mas, com o avançar dos meses, o governador de São Paulo certamente será obrigado a se afastar de boa parte das posições radicais de Bolsonaro na campanha, a fim de não afugentar o eleitor de centro. É essa fatia não engajada dos brasileiros que decidirá a eleição.

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