
O dólar abriu em forte baixa nesta quinta-feira (3), com o mercado reagindo ao anúncio, na véspera, das tarifas recíprocas de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Por volta, das 10h40, a moeda americana era vendida a R$ 5,60.
E a queda não é apenas em relação à moeda brasileira, mas em nível global. O índice DXY (que é um indicador que mede o desempenho do dólar em relação a uma cesta com as principais moedas do mundo) opera em queda de quase 2% e está na menor cotação desde setembro do ano passado.
Além do desempenho negativo do dólar, a maioria das principais bolsas de valores globais operam com quedas fortes.
Isso porque, nesta quarta-feira (2), Trump finalmente detalhou como vão funcionar as tarifas recíprocas que vinha prometendo desde o início de seu mandato e o anúncio desagradou os mercados no mundo todo.
O presidente explicou que as tarifas cobradas sobre os produtos vindos de outros países serão equivalentes a pelo menos a metade das tarifas cobradas pelos mesmos países sobre os produtos importados dos EUA.
As regiões mais afetadas foram a Ásia e o Oriente Médio, com taxas que ultrapassam os 40% em alguns casos. A Europa também foi bastante impactada com as tarifas anunciadas pelo presidente, que classificou os comerciantes europeus como “muito duros”.
O Brasil entrou no grupo que recebeu as tarifas mais suaves, de 10% sobre todas as importações.
O mercado recebeu o anúncio de forma negativa porque tarifas maiores sobre a grande maioria dos produtos que chegam aos EUA devem encarecer, além de produtos finais, uma série de insumos para a produção de bens e serviços no país.
Especialistas avaliam que esse encarecimento deve pressionar a inflação e diminuir o consumo, o que pode provocar uma desaceleração ou até recessão da atividade econômica da maior economia do mundo — o que ajuda a desvalorizar o dólar neste pregão.
Ao mesmo tempo, esse sentimento negativo e cheio de incertezas faz os investidores se afastarem dos ativos de risco, como os mercados de ações, o que prejudica as bolsas de valores em todo o mundo.
O Ibovespa, principal índice acionário da bolsa de valores brasileira, a B3, opera em alta, na contramão do resto do mundo.
As taxas para o Brasil foram menores que as de muitos outros parceiros comerciais dos EUA. Mas, além disso, as altas tarifas impostas por Trump podem abrir portas para exportadores brasileiros, que podem ganhar espaço com outros parceiros, explicam especialistas.
💲Dólar
Às 10h40, o dólar caía 1,64%, cotado a R$ 5,6052. Veja mais cotações.
No dia anterior, a moeda americana teve alta de 0,27%, cotada a R$ 5,6986.
Com o resultado, acumulou:
- queda de 1,06% na semana;
- recuo de 0,12% no mês; e
- perda de 7,79% no ano.
No mesmo horário, o Ibovespa subia 0,55%, aos 131.907 pontos..
Na véspera, o índice teve alta de 0,03%, aos 131.190 pontos.
Com o resultado, o Ibovespa acumulou:
- queda de 0,54% na semana;
- avanço de 0,71% no mês; e
- ganho de 9,07% no ano.
O que está mexendo com os mercados?
O tarifaço de Trump segue mexendo com os ânimos de investidores no mundo inteiro, com a crescente cautela de que a guerra tarifária resulte em inflação e recessão econômica.
A imposição de tarifas de importação era uma das principais promessas de campanha do republicano. Desde que assumiu o atual mandato, ele já decretou tarifas sobre grandes parceiros comerciais, como México e Canadá, além de impor ou ameaçar colocar taxas sobre produtos específicos, como aço, alumínio, automóveis e produtos agrícolas.
O grande temor do mercado é que o tarifaço inicie uma guerra comercial generalizada pelo mundo, em que outros países também elevem suas taxas em resposta às decisões do presidente norte-americano.
Trump chamou o anúncio das tarifas recíprocas como “Dia da Libertação”. O objetivo do presidente é que essas taxas “libertem” os EUA de produtos estrangeiros.
A forma para que os outros países evitem as taxas, segundo Trump, é transferindo suas fábricas para os EUA. Mas os países estão reagindo de forma diferente.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que as tarifas constituem um “duro golpe à economia mundial”. Também declarou que o bloco está “preparado para responder”, embora tenha assegurado que “não é tarde demais” para abrir negociações com Washington.
Na Alemanha, o chefe de Governo, Olaf Scholz, considerou que as decisões de Trump são “fundamentalmente erradas” e “constituem um ataque contra uma ordem comercial que criou prosperidade em todo o mundo”. Assim como outros líderes europeus, ele afirmou que o bloco responderá “de maneira unida, forte e apropriada”.
No Reino Unido, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, disse a empresários do país que as medidas terão “um impacto econômico, tanto a nível nacional como mundial”.
“Transmiti que as medidas tarifárias unilaterais adotadas pelos Estados Unidos são extremamente lamentáveis e pedi, novamente, (a Washington) para não aplicá-las ao Japão”, declarou o ministro japonês do Comércio, Yoji Muto.
Na China, o Ministério do Comércio pediu a Washington que “cancele imediatamente” as novas medidas, que, afirma, “colocam em perigo o desenvolvimento econômico mundial”. Também anunciou que adotará “contramedidas para preservar seus direitos e interesses”.
“Vamos combater essas tarifas com contramedidas”, alertou o premier Mark Carney, para quem as taxas americanas “vão mudar fundamentalmente o sistema de comércio mundial” e afetar “diretamente milhões de canadenses”.
No Brasil, o Senado aprovou nesta terça-feira um projeto que cria mecanismos e autoriza o governo a retaliar países ou blocos que imponham barreiras comerciais a produtos brasileiros
🔎 Tarifas maiores tornam os produtos mais caros, e encarecem também os bens e serviços que dependem desses insumos importados. Isso tende a aumentar a inflação e impactar o consumo.
Por isso, há uma percepção de que os EUA podem passar por um período de desaceleração da atividade econômica, ou até uma recessão da economia — o que tem potencial de afetar o mundo todo.